A IMPOSSÍVEL FACA DA MEMÓRIA

Laurie Halse Anderson

Editora: Valentina

Páginas: 352

Ano: 2019

Sinopse:

A adolescente Hayley Kincain e o pai, Andy, passaram cinco anos viajando de caminhão, fugindo das lembranças que os assombram. Agora, estão de volta à cidade natal de Andy para tentar levar uma vida “normal”, mas os horrores que ele testemunhou na guerra ameaçam destruir a existência de pai e filha. De mãos e pés atados, Hayley é obrigada a vê-lo ser lentamente derrotado pela depressão, e se entregar às drogas e à bebida para calar os demônios interiores. É então que seu próprio passado vem à tona, e o presente se estilhaça... anunciando um futuro totalmente incerto. O que você deve fazer para proteger a vida de seu pai quando a morte o está rondando? Que atitude tomar quando os papéis de pai e filha se invertem? E o que acontece quando aquele garoto encantador e divertido entra no seu mundo sem pedir licença e, pela primeira vez, você se vê pensando no futuro? Atual, surpreendente, irresistível, A impossível faca da memória é Laurie Halse Anderson no seu auge.

“Estava com os fones de ouvido, mas sem música. Precisava ouvir o mundo, mas não queria que o mundo soubesse que eu estava prestando atenção.”

(Página 12)

Você já parou pra pensar em como a nossa memória é complexa? Só pra se ter uma ideia, a função memorizar é classificada em vários tipos e, quanto mais se estuda, mais se descobre a respeito dela. Aqui, me refiro especificamente à complexidade das memórias adquiridas com a nossa vivência.

Existem fatos das nossas vidas que queremos apagar da memória, mas não conseguimos. Outros que precisamos nos esforçar para lembrar. E há ainda aqueles que sequer lembramos, mas que, de alguma maneira, a memória dá um jeitinho de nos fazer revisitá-los.

Isso, caro leitor, nos leva à história da dica de hoje.

“Os quilômetros percorridos pelos pneus ajudavam a apagar tudo que não queríamos relembrar, o passado se esfumando num vago padrão de sombras mal-entrelaçadas que ficavam muito longe, o lugar certo para elas.”

(Página 30)

Andy e sua filha Hayley mudaram-se há pouco tempo para a casa de sua falecida mãe, em Belmont. Ele perdeu a esposa num trágico acidente quando Hayley ainda era um bebê. Na época, Andy servia ao exército e a menina acabou ficando aos cuidados da avó paterna, até o dia em que essa morreu.

Ao voltar para o convívio com o pai, Hayley passou a conhecer outra realidade, algo que a obrigou amadurecer muito cedo. Após algumas temporadas no Iraque e no Afeganistão, um atentado levou Andy a se aposentar, mas os terrores vividos na guerra ficaram impregnados em sua memória. Passou a beber, meter-se em brigas, entre outras coisas. Fugir das memórias da guerra parecia um caminho fácil. Andy conseguiu um emprego de caminhoneiro e, junto com Hayley, passou cerca de cinco anos viajando pelo país, educando-a como podia.

Quando Andy resolve voltar à sua terra natal, Hayley já está com dezesseis anos e, talvez, isso fosse bom para ambos. Entretanto, as coisas acabaram não sendo necessariamente assim.

“O medo me deixava com raiva e a raiva me deixava com medo e eu não sabia mais quem ele era. Ou quem eu era.”

(Página 105)

O emprego decente dos sonhos torna-se apenas uma ilusão, enquanto Andy se afunda cada vez mais nas drogas e no álcool. Hayley tenta adaptar-se à escola, ao mesmo tempo em que necessita cuidar do pai e evitar que ele atente contra a própria vida. Os traumas de Andy afetam diretamente Hayley que, assim como o pai, luta para apagar lembranças de um passado que atormenta a ambos. Mas a memória parece ter vida própria. Ela vem sem um aviso. Cortante. Acompanhada de sentimentos que Andy e Hayley não conseguem evitar.

Em meio a tanta tensão, o medo, as coisas da escola e a pressão pelo vestibular que se aproxima, eis que entra o Finn na vida da garota, um cara fofo e incrível, que trouxe um tipo diferente de bagunça para a rotina da Hayley. Mas nem mesmo o Finn consegue apagar as memórias indesejáveis, ainda mais agora que alguém do passado ameaça voltar e arruinar de vez a vida de pai e filha.

“A realidade é uma merda.”

(Página 225)

Preciso dizer o quanto eu amei a escrita da Laurie Halse Anderson! É meu primeiro contato com um livro dela e A Impossível Faca da Memória entrou disparado para a lista de favoritos do ano.

A autora traz temas diversificados na trama, com personagens muitíssimo bem construídos e totalmente cativantes. A inversão nos papéis de pai e filha é o ponto central e ela conduziu toda a narrativa de maneira envolvente, fazendo o leitor se sentir parte da história. À medida que ela apresenta flashes da memória tanto de Hayley quanto de Andy, a trama vai ficando mais intensa e a gente começa a pensar no quanto um trauma pode afetar toda uma vida, ou vidas nesse caso.

“Não se pode fugir da dor, garota. Lute com ela e fique mais forte.”

(Página 344)

A história é contada a partir do ponto de vista da Hayley, e a Laurie foi bastante sensível ao trazer um tema tão delicado, sobre alguém que vive um transtorno após viver todo o horror que envolve uma guerra. As memórias do Andy são realmente tocantes e não tem como não sentir empatia por ele e por sua filha.

Isso me leva a pensar na quantidade de pessoas que vivem uma depressão, ou qualquer outro tipo de transtorno mental, e que não têm alguém bacana por perto, para dar aquele apoio. As pessoas ainda veem a depressão com um preconceito gigante e livros como esse aqui nos mostram a importância das relações nesse processo.

Não posso deixar de citar que amo livros que trazem o universo adolescente. Os amigos da Hayley – e a própria Hayley – trouxeram um ar mais leve à história, apesar de eles também estarem em momentos turbulentos de suas vidas. Gracie, a amiga de infância, e Finn, O Crush! O sarcasmo, a implicância, as paixões. A interação entre eles foi um dos pontos altos da trama, para mim.

Embora traga temas tão difíceis, A Impossível Faca da Memória me deixou com uma ressaca literária boa de sentir. Indico muito sua leitura!

01 Comentário

  1. Marina Mafra24 jul, 2019Responder

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