Fisheye

Kamile Girão

Editora: Wish

Páginas: 316

Ano: 2017

Sinopse:

"Meus olhos são como canudos, Mick, só me permitem enxergar por um buraquinho. E com o tempo, a abertura deles vai diminuir muito, até que a fenda deixe de existir.” Aos dezesseis anos, Ravena Sombra descobre que não é perfeita: após um acidente numa festa, ela é diagnosticada com retinose pigmentar, uma doença sem cura que degenerará a sua visão gradativamente. Com o mundo pelo avesso, a adolescente inicia sua jornada em busca do amadurecimento e da superação, numa narrativa intimista à procura de se entender e de se descobrir. Ao longo do caminho, contará com a ajuda do melhor amigo de infância, da sua implicante e carismática irmã, de uma velha polaroid com nome de música dos Beatles e de um violinista cuja pele é marcada por cicatrizes e os olhos de um azul infinito como o céu. No meio de tanto caos, Ravena vai entender que crescer não é um processo fácil e que sim há beleza em enxergar o mundo do seu jeito peculiar e especial.

É como… se você fosse uma fisheye (…) que tenta ser uma Polaroid, querendo registrar tudo de imediato porque tem medo de não poder mais fazer registros. (Páginas 242 e 243)

Desde pequena, Ravena esbarrava nas coisas e pessoas. Não parecia possuir muita noção de espaço. Pensava ser apenas atrapalhada, mas a situação era mais séria.

Uma doença crescia junto com ela e diminuía, cada vez mais, a sua visão.

Que fiquem claras algumas coisas: não sou a perfeição encarnada e talvez nunca venha a ser, mas me esforço o suficiente para chegar bem perto disso. (Páginas 24 e 25)

Como não havia com o que comparar, a qualidade da visão não a incomodava. Mas em um momento, a piora foi tão grande, que dependendo de onde ou como ela estivesse, sua visão era mínima ou quase nenhuma.

Resolveu marcar consulta com um oftalmologista, pois não se sentia a vontade para falar com o pai, que era médico. Foi quando ela ouviu pela primeira vez, o nome retinose pigmentar.

Não conseguia parar de pensar que dali a alguns anos não enxergaria a minha própria imagem no espelho. (Página 67)

Assustada com o que encontrou sobre a doença na internet, manteve o assunto em segredo.

A noite não era minha amiga e não era à toa que, após às seis horas, eu me trancava em meu quarto, segura na minha jaula. Meus tropeços, meus esbarrou, minha cegueira noturna, todos os meus segredos estavam a salvo. Mas não havia segurança alguma. E agora eu percebia isso. (Página 153)

Ela já não tinha apoio em casa e também se afastou dos amigos, por medo de alguém notar o que estava acontecendo. De popular e descolada, passou a ser evitada. Ninguém entendia o motivo da mudança em seu comportamento, em tão pouco tempo.

Não precisei refletir muito para entender o porquê de eu me importar tão pouco em largar uma posição a qual prezei por tanto tempo. Estava de saco cheio de viver à procura de aprovação. (Página 149)

O destino a aproximou de Daniel, um rapaz marcado na pele e na alma por um passado trágico. Nele, ela encontrou a calmaria para todo o seu tormento.

Era esquisito perceber que o belo e o horrível podiam habitar a mesma pele e montar a feição da mesma pessoa. (Página 54)

Quando se tornou inevitável disfarçar os sintomas da doença, o pouco que parecia certo da sua vida, se tranformou em confusão. Era tão difícil para ela se aceitar, quanto para seus amigos e familiares conseguirem lidar com a situação.

(…) perceber que tem uma doença a fez notar que não dá para ser perfeita para alimentar expectativas. (Página 110)

Ravena mudou, literalmente, a forma de observar a vida. Coisas simples ganharam um imenso significado e descobriu que aceitar ajuda, não necessariamente significa fraqueza, mas pode ser um dos caminhos para sobrevivência.

Posso não ser mais quem eu era, mas também não quero ser menos do que sou agora. (Página 181)

Narrado em primeira pessoa, esse livro é uma lição de vida. Cheio de referências nerds e musicais, Kamile escreve com doçura e leveza, sobre um assunto muito pesado e o impacto que causa em todos ao redor. É impossível não se identificar de alguma forma, o que torna a história bastante real.

A leitura foi recomendada pela minha sobrinha @sapekaindica e um presente da autora. Só consigo agradecer e recomendar. Mais um nacional que entra para a lista dos Tops no meu coração.

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3 Comentários

  1. Kami Girão07 jul, 2018Responder
    • Marina Mafra08 jul, 2018Responder
  2. 12 jul, 2018Responder

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