Pós-F

Fernanda Young

Editora: Leya

Páginas: 128

Ano: 2018

Sinopse:

Em sua primeira obra de não ficção, Fernanda Young se insere no acalorado debate sobre o que significa ser homem e ser mulher hoje. Em textos autobiográficos, ela se revela como uma das tantas personagens femininas às quais deu voz, sempre independentes e a quem a inadequação é um sentimento intrínseco. E esse constante deslocamento faz com que Fernanda seja capaz de observar o feminino e o masculino em todas as suas potencialidades. É daí que surge o Pós-F., pós-feminismo e pós-Fernanda, um relato sincero sobre uma existência livre de estigmas calcada na sobrevivência definitiva do amor, no respeito inquestionável ao outro e na sustentação do próprio desejo. “Não sou especialista em nada. Melhor, não sou especialista de coisa pronta. Procuro me aprimorar em mim, entendendo sobre mim – usando, é claro, tudo o que observo nos outros”, escreve. Assim, em Pós-F: Para além do masculino e do feminino, que é ilustrado com desenhos da autora, Fernanda Young vasculha internamente vivências e sentimentos para oferecer aos leitores sua visão de mundo. Fernanda se dirige a qualquer ser humano que habite nosso planeta neste século XXI, seja homem ou mulher. Como alguém que reúne diferentes perfis e concilia papéis aparentemente opostos, ela fala abertamente sobre a própria vida com o intuito de se posicionar sobre liberdades e responsabilidades – sem jamais deixar de combater o machismo em nossa sociedade. Sua preocupação central, no entanto, é superar polarizações para construir algo maior, em que caibam todos os gêneros. O objetivo de Fernanda Young não é ter a palavra final, mas contribuir com o debate – defendendo não a sua opinião, mas o direito de tê-la. Pois ela insiste que o ponto central de toda essa discussão deveria ser o respeito ao outro, algo que continua sendo desmerecido em nome de uma bipolaridade. É por isso que no mundo Pós-F. não há mais a necessidade de discursos e atitudes radicais: masculino e feminino se dissolveram num universo de encontros de desejos, sem interdições ou medos.

Falar de Pós-F é falar de Fernanda Young e do que é viver. E, ao mesmo tempo, falar de tudo e quase nada. Tudo, pensando que cada tópico levantado pela autora é digno de debate, de reflexão, de colocar a cara a tapa para assumir algumas verdade e preconceitos. Nada, porque, não interessa, algum dia talvez o tudo seja desconstruído, ou ainda, porque o tudo que ela aborda não seja suficiente para esgotar os temas que suas vivências consideraram como críticos nos dias atuais.

Não que autora deseje dar lições de moral, ou ser expert em qualquer um dos assuntos que aborda. De cara ela já diz que não é especialista em nada. E, livre dessa necessidade, explora os recônditos do que é ser mulher, do que é ser homem nos dias de hoje. Do outro, como ela ressalta, dos limites, padrões e regras que a sociedade começa a se impor e a cobrar.

“No meu braço esquerdo tenho tatuado o verso de Madonna: “Do you know what it feels like in this world for a girl?” (Você sabe como se sente uma garota neste mundo?) Essa é a pergunta que ecoa desde que a tatuei, há muitos anos. Eu sei como me sinto. E, aqui, conto um pouco.”

Em uma edição que combina ilustrações, feitas pela própria Fernanda, trechos de conversas, cartas escritas e textos que dialogam com o leitor, Pós-F, vem, de maneira irreverente, tentar mostrar verdades nuas e cruas das vivências. Das vivências de Fernanda, em especial, mas que casam perfeitamente com a minha ou a sua. Com a de qualquer leitor.

A brincadeira do título, Pós-F, F de Fernanda, F de Feminismo. Esse, rende. Porque a própria autora não se assumia como feminista por grande tempo. Dizia que não era algo dela e, ao mesmo tempo, deixa claro que não busca o feminismo que está estampado em muitas camisetas do mundo afora.

“[…] ainda criança detectei o que queria mais do que tudo: ser livre. Livre da opinião dos outros, do que a sociedade iria pensar, do que um marido iria exigir, da opressão de ter que fingir amar a vida doméstica – odeio -, de ter que ir a reunião de pais, de condomínio, de ser obrigada a votar, de não poder xingar, trepar, errar, beber. Livre de qualquer coisa que me tirasse de mim. E esse sonho se realizou. Pode ter certeza que, de onde eu vim, ser livre era tão improvável quanto ser astronauta da Nasa.”

E, dizendo isso, lembra do papel de inclusão, de ensinar que o feminismo deve ter. De incluir aqueles que oprimem para que não mais o façam. Muito mais do que apenas os homens que exercem seu lugar-comum de atitudes confortáveis e desconfortáveis, a cobrança que os impera e o viés tóxico que também as mulheres podem atuar. Papel que não é lembrado com frequência e gera uma fragmentação e maior alimento do seu extremo oposto: o machismo.

Pode parecer estranha essa dicotomia, mas depois de dias de finalizada leitura, chego ao mesmo ponto da autora. E, ao mesmo tempo, me recordo das palavras de Chimamanda Ngozi Adichie em seu discurso intitulado Sejamos Todos Feministas, sobre os estereótipos que limitam o termo feminista e feminismo, assim como a colocação de que, tanto mulheres quanto homens podem ser feministas. Sem dúvidas este não é um assunto fácil de lidar, de dialogar, Young sabe disso, mas o faz sem papas na língua (ou no texto).

“Vejam bem, não estou propondo diminuir as necessidades de manifestos feministas nem a urgência de muitas causas que por eles são defendidas. Muitas dificuldades e circunstâncias injustas da sociedade contemporânea têm um histórico sexista e reconheço que o discurso feminista é por demais verdadeiro, sofisticado, necessário. Mas o fato é: neste momento, ninguém está pensando no homem. Por isso que todo o discurso pode vir a ser tenebroso, porque nele uma bipolaridade está intrínseca quando, na verdade, somos todos potencialidade pura – e temos total liberdade sexual. Podemos estar numa hora de um lado e, no momento seguinte, do outro. Por isso, precisamos de um discurso diferente, um discurso que seja sensível a essa potencialidade, e que acolha os dois gêneros.”

Esse não é o único ponto que a autora aborda no livro. Ela fala sobre sexualidade feminina, sobre assédio. Em como vários temas ainda são tabus e precisam ser debatidos. Ela fala dos extremos, de como uma ideia para determinadas ações tem sido alargada de maneira a caber tudo que incomoda. Tudo que, especialmente, incomoda no outro.

E é bom lembrar que boa parte do que incomoda tem viés cultural e este, não se muda do dia para noite. Para mudar a cultura é preciso agir no comportamento e, para isso, é preciso instituir lições que se adequem ao dia a dia das pessoas. Sem dúvidas uma jornada complicada e longa, mas lutada diariamente e possível de obter êxito.

“Acho que devo retificar a informação de que não me arrependo de nada: gostaria de não ter vivido algumas coisas. Talvez, talvez, eu apenas quisesse ter feito outros caminhos, só para comprovar que não é necessária a dor para se alcançar algo. Não suporto quando dizem que eu não seria quem sou se não tivesse sofrido. Penso que esse discurso é grosseiro. E se me ocupo em instigar artes das pessoas, devo defender que qualquer estereótipo para o artista é uma burrice. Caso eu consiga ajudar uma pessoa, fazê-la crer que irá conseguir, ao menos poderei aceitar que não foi em vão.”

O papel da mulher na sociedade, assim como o respeito ao outro, que acaba reverberando em todas as páginas do texto, é explicitado através da liberdade que a própria autora possui como mulher que se reinventa, que renasce a cada ciclo e que sabe que toda essa desconstrução e reconstrução são necessárias. Ela não quer papel x ou y, como diria, prefere morrer a ser dona de casa. Porque sabe de si, de seus limites e do que suporta. E, especialmente, do que não suporta.

A autora ainda nos presenteia, entre capítulos, com cartas aos mais interessantes destinatários: ‘a quem não nos enxerga‘, ‘aos vendedores de ilusão‘, ‘à bunda‘, ‘ao pequeno sabotador interno‘… diálogos para lá de identificáveis com quem lê. Medos e aflições comuns ao ser humano que habita o mundo de hoje e o mundo de alguns anos atrás (não duvido que daqui a alguns anos à frente, também).

“Esses conflitos todos da luta dos sexos, esses conflitos da luta entre homem e mulher, ainda sim poderiam ser evitados se tivéssemos uma consciência muito mais sofisticada, tanto da psicanálise quanto espiritual. Não por meio do que pregam as religiões, mas da noção de que somos de fato todos iguais. Porque somos manifestações únicas de um jogo lindo de consciência, quer você chame de Deus ou não. Mas isso não interessa. Não seria rentável pensar assim. E tudo o que não interessa é o tempo inteiro descartado ou considerado balela. E os discursos que são muito mais lucrativos e que são considerados mais interessantes, eles surgem e sempre apresentam uma grande briga, seja entre os sexos, ou mesmo entre religiões.”

Pós-F foi meu primeiro contato com a escrita de Fernanda Young, e suscitou a necessidade de conhecer suas outras obras, para ler-te em versão não autobiográfica. E, apesar da redundância, não poderia terminar o livro sem desejar o Pós-F, o mundo Pós-Feminismo, em que qualquer ação como essa já não seja necessária. Que o respeito ao outro perpetue, independentemente de qualquer coisa.

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