Battle Royale

Koushun Takami

Editora: Globo

Páginas: 664

Ano: 2014

Sinopse:

Battle Royale é um thriller de alta octanagem sobre violência juvenil em um mundo distópico, além de ser um dos best-sellers japoneses e mais polêmico entre os romances. Como parte de um programa implacável pelo governo totalitário, os alunos do nono ano são levados para uma pequena ilha isolada e recebem um mapa, comida e várias armas. Forçados a usarem coleiras especiais, que explodem quando eles quebram uma regra, eles devem lutar entre si por três dias até que apenas um "vencedor" sobreviva. O jogo de eliminação se torna a principal atração televisiva de reality shows. Esse clássico japonês é uma alegoria potente do que significa ser jovem e sobreviver no mundo de hoje. O primeiro romance do jornalista Koushun Takami, tornou-se um filme ainda mais notório pelo diretor de 70 anos de idade, Kinji Fukusaku.

Talvez o sangue respingue em seu uniforme, mas garanto que será uma sorte extrema caso esse seja o único problema que você tenha que enfrentar. Afinal, ser colocado em uma ilha evacuada, junto a seus 41 colegas de classe, com o objetivo de matarem uns aos outros até restar apenas um estudante, não é algo que se vê todos os dias. Isso, é claro, se você não vive na República da Grande Ásia Oriental.

Agora, se você faz parte da classe selecionada ou mesmo se vive na República, sabe bem que isso acontece anualmente. Alguns consideram uma enorme fatalidade o ocorrido, outros, uma possibilidade distante. Entre tantas turmas, quais as chances da sua ser selecionada? Mínimas.

Isso se você não pertencer a Turma B do 9º ano da Escola de Ensino Fundamental Shiroiwa, Província de Kagawa. A turma de Shuya Nanahara, Shogo Kawada e Noriko Nakagawa.

Munidos de suas habilidades adquiridas na vida até seus 15 anos, assim como as mais aleatórias armas distribuídas pela organização do Programa – que vão de um garfo à uma metralhadora -, cada estudante é liberado, um a um, do centro de comando na ilha desocupada para a batalha. Destinados à se matarem uns aos outros.

“Todos já devem saber que as regras são simples. Tudo que têm a fazer é matar uns aos outros. Não há restrições quanto a isso. E… apenas quem restar por último poderá voltar para casa. E receberá um cartão autografado pelo Supremo Líder. Não é fantástico?”

Soltos na ilha, alguns irão procurar aqueles os quais sentem confiança, outros irão se isolar por completo. Mas, o que alguns acreditam ser impossível – assassinarem uns aos outros – logo se torna a realidade. Um jogo mortal, que vai desafiar bem mais do que a habilidade de permanecer vivo, mas de permanecer são em meio à pressão da morte iminente.

A leitura de Battle Royale é um desafio, mas não por suas mais de 600 páginas. Talvez por falta de hábito, no começo, é difícil conseguir identificar os personagens por seus nomes. Mas, tão logo esse detalhe é superado, é possível acompanhar os mais de 42 personagens que são introduzidos durante toda a leitura. Além disso, o livro conta com uma listinha dos estudantes e também com um mapa da ilha em que se passa o jogo, o que ajuda na compreensão das posições e movimentações durante a jornada.

O autor segue o trio principal já citado, Shuya, Shogo e Noriko e, além disso, vai apresentando outros personagens ao longo do livro, mostrando um pouco de suas vidas e, claro, inevitavelmente, suas mortes. Com direito à cenas descritivas com sangue jorrando bem no estilo splatter-movie (ou apenas splatter, cinema splatter ou gore), nos pegamos esbarrando em alguns estudantes desavisados e, em outros, mais preparados para a carnificina do que se poderia imaginar.

O único detalhe nesse ponto é que, até o fim do livro, estão sendo introduzidos personagens, o que torna a narrativa, por vezes, um pouco cansativa, assim como parece que, a medida que a trama vai se aproximando do fim, os personagens passam a ser apresentados de maneira mais superficial. O que faz crer que, de certa forma, o livro poderia ser um pouco mais enxuto, já que nem todos os personagens tomam tempo de estabelecer uma relação mais aprofundada com o leitor.

“Você não poderia sobreviver neste país se realmente desejasse fazer as coisas da forma correta.”

Ainda que o gore se faça presente, devo dizer que, apesar de visceral, o livro não chegou a chocar, mas tenho certeza que isso pode acontecer com outros leitores, já que há uma carnificina em cena. Também existem boas ponderações sobre o sistema que impera na República e que leva à execução do Programa doentio, tanto quanto os efeitos disso na população, nas relações internacionais. Com a ressalva de que, por vezes, a narrativa se valha de discursos um tanto quanto “ensaiados” para surgirem nas conversas dos personagens, faltando um pouco de naturalidade aos debates entre os alunos. A história se desenvolve e encerra de uma boa maneira e mostra que a corrupção de um sistema autoritário está bem arraigada e que, para alterá-la, é preciso uma nova consciência nacional.

Em especial, deixada a crueldade do país de lado, há o lado humano que se mostra a todo tempo na história. Não apenas a surpresa de ver que, provavelmente você não conhece muito bem aqueles com quem convive diariamente, mas também nos comportamentos mais diversos que vemos surgir, como o previsível assassino serial e, de outro lado, o desesperado, o medo da traição, a suspeita do outro, a insegurança, o medo irracional, a desistência, a crença no outro. O comportamento humano, em si, é o melhor experimento que a leitura tem a proporcionar. O choque está aí bem mais do que nas amputações e dilacerações das mortes violentas.

Um adendo à parte é que, alguns inevitavelmente irão associar à ideia de Battle Royalle à franquia bem sucedida de Jogos Vorazes, que começou com os livros da autora Suzanne Collins. O detalhe a lembrar aqui é que Battle Royale foi lançado originalmente em 1999 e, Jogos Vorazes, apenas em 2008, ou seja, quase uma década depois do sucesso de Koushun Takami.

Battle Royale é uma viagem intensa, violenta e sangrenta com direito à conhecer o melhor e o pior do ser humano. É cruel, insano e injusto. Vida e morte digladiam enquanto alguns apenas escutam, apostam, dão ordens e sorriem. A batalha ressoa no som das balas disparadas e é refletida na lâmina que corta e perfura. 42 vidas jogadas lá, apenas 1 deve vingar.

Battle Royale do autor Koushun Takami foi recebido em parceria com a Globo Alt.

“Logicamente a liberdade é um direito inato a todo cidadão, mas para o bem-estar público, às vezes ela deve ser restringida.”

3 Comentários

  1. Marina Mafra13 jan, 2020Responder

deixe seu comentário