Holocausto Brasileiro

Daniela Arbex

Editora: Geração

Páginas: 256

Ano: 2013

Sinopse:

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.

Quando pensamos em mortes em massa, lembramos logo de guerras, das cercas de Auschwitz, Hitler e sua maldade fiel. Mas, um genocídio, o maior que existiu no Brasil, ainda é desconhecido por grande parte da nossa nação.

O Colônia, o retrato no horror, batizado como hospital psiquiátrico, tem em seus registros de cerca de 60 mil mortos, pessoas que foram internadas compulsoriamente, e que perderam a sua condição humana por conta das barbáries que lhes foram impostas.

“Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Tinham sido, a maioria, enfiadas nos vagões do trem, internadas à força. Quando elas chegaram ao Colônia, suas cabeças foram raspadas, e as roupas, arrancadas. Perderam o nome, foram rebatizados pelos funcionários, começaram e terminar ali.”

Criado em 1900, o Colônia recebeu os mais diversos tipos de pacientes, desde doentes mentais, como também jovens que foram abusadas por seus patrões, pessoas que simplesmente se mostravam tímidas ou tristes, homossexuais, alcoólatras, gente que perdeu a carteira com seus documentos, grávidas, esposas indesejadas, crianças deficientes ou rejeitadas pelas suas próprias famílias. A forma de se livrarem de pessoas que incomodavam a sociedade pelo simples fato de existirem, era embarca-los no famoso “Trem de doido”, seguindo rumo ao Hospital Colônia de Barbacena em Minas Gerais.

“Ao receberem o passaporte para o hospital, os passageiros tinham sua humanidade confiscada.”

Lá, as pessoas foram desaparecendo, não apenas pela morte, mas pelo descaso, pela invisibilidade, pelo sofrimento físico e mental. Comida precária, água vinda do esgoto que atravessava os pátios do hospital, ratos e urina se fizeram presentes em suas refeições. Urubus sobrevoavam por suas cabeças, pelos horrores que faziam parte do dia a dia daquelas pessoas: cadáveres, fezes, urina. Humanos se decompondo enquanto ainda respiravam. Foram eles, violentados, torturados. MORTOS! Abandonados por quem deveriam salvá-los.

Seus gritos jamais foram ouvidos!

Seus corpos, vendidos para universidades, para serem dissecados, explorados, estudados. Pessoas que viraram apenas números, valores em contas bancárias.

“A loucura que desfilava diante de seus olhos não o impressionava, e sim as cenas de um Brasil que reproduzia, menos de duas décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o modelo dos campos de concentração nazista.”

A história do Colônia, com certeza não é algo de que podemos nos engrandecer. Esse é apenas mais um fato ocorrido no Brasil e que fomos vendados, impedidos de conhecer e lutar pelo fim. Uma história oculta, que, apenas depois de muitos anos viera à tona, nos deixando com a sensação de impotência e vergonha por termos tantas pessoas por detrás de tamanha perversidade, e que se taxavam educadas, estudadas e dignas de profissões de tão grande destaque, matando, torturando e achando que estava tudo dentro da normalidade. Foram oito décadas de sofrimento, abandono, de fome, frio, misérias e omissão de direitos.

“Seria de desejar que o Hospital Colônia morresse de velhice. Nascido por lei, em 16 de agosto de 1900, morreria sem glórias. E, parafraseando Dante, poderia ser escrito sobre o seu túmulo: quem aqui entrou perdeu toda a esperança.”

Após concluir a leitura ficamos, a nos perguntar de quem é a culpa; não seria prudente culparmos apenas o Estado, pois a culpa dessa barbárie é coletiva, veio de cada pessoa que presenciou e se calou, que estudou para ajudar e aceitou – não apenas aceitou, mas ordenou – que seres humanos fossem tratados como animais peçonhentos, não dignos de amor e liberdade, sendo que muitos deles sequer tinham algum problema mental, e mesmo portando algum, sabemos que eram cidadãos dignos de amor, cuidado, proteção, e, sobretudo, dignos de desfrutar de seus direitos!

Dizer que tais abusos e preconceitos acabaram é total inverdade, hoje às cercas de Auschwitz, ou os muros Hospital Colônia de Barbacena estão espalhadas por todo o mundo. Podemos encontrar os segregados nas favelas, nas calçadas, na melanina, nas contas bancárias, mais uma vez na religião e na saúde mental. É um ciclo sem fim, e de responsabilidade NOSSA, nós devemos ir à luta todos os dias, para que os muros caiam sobre todos estes males, que, década após década, insistem em nos tornar menos humanos.

“Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos, e, com eles, o retorno das internações compulsórias temporárias. Será a reedição dos abusos sob forma de política de saúde pública? O país está novamente dividido.”

2 Comentários

  1. Marina Mafra27 maio, 2020Responder
    • Taize Lima28 maio, 2020Responder

deixe seu comentário