O Bracelete Misterioso de Arthur Pepper

Phaedra Patrick

Editora: Fábrica 231

Páginas: 304

Ano: 2017

Sinopse:

Quanto tempo é necessário para conhecer verdadeiramente uma pessoa? Um ano após a morte de Miriam, com quem foi casado por 40 anos, Arthur Pepper finalmente toma coragem para arrumar o armário da esposa. O viúvo de 69 anos e hábitos modestos, cada vez mais fechado em sua vida solitária, fica surpreso ao encontrar, nas coisas de Miriam, um extravagante bracelete de ouro que ele não conhecia, enfeitado com oito diferentes pingentes. Determinado a descobrir a história por trás da joia, ele percebe que sabia muito pouco do passado da mulher com quem viveu por quatro décadas. E embarca numa viagem que o levará da Índia a Paris, na companhia da vizinha Bernadette, uma viúva que dedica seu tempo a cuidar de pessoas que perderam entes queridos. Uma jornada que mudará para sempre não só a maneira como Arthur conhecia a esposa, mas a sua própria vida, levando-o a fazer as pazes consigo mesmo e com o mundo.

Meu primeiro contato com o livro foi através da capa. Um dia passando pela livraria fui fisgada por essa arte bonita, embora a sinopse tenha me surpreendido ainda mais. O título da obra também me induziu a erro. Até pensei que pudesse ser uma história infantojuvenil ou fantástica sobre um artefato mágico. Mas não. Toda a magia de O bracelete misterioso de Arthur Pepper está em contar uma história simples, humana e muito bem-humorada.

O livro narra a história de Arthur, um serralheiro aposentado que não sabe lidar com a morte da esposa. A solidão e a saudade são seus desafios diários. Sem ela, sua casa é apenas um depósito inesgotável de memórias e a rigidez da sua rotina parece ser o seu único alento. A ausência dela é algo latente desde a primeira página. Para Arthur, viver é como apenas existir e sobreviver aos dias, entre xícaras de chá e o cuidado das plantas de que Miriam gostava.

No primeiro aniversário de morte de Miriam, Arthur se força a finalmente separar os itens pessoais dela, até então intocados, e dar algum destino a eles. Inesperadamente, ele descobre uma pulseira de ouro cheia de pingentes escondida entre os pertences dela. De posse desse segredo encoberto de mistérios, ele se agarra a essa possibilidade para suprir o vazio que sente. Descobrir as histórias por trás de cada um dos pingentes é uma forma de se reconectar com a esposa e também de encontrar um sentido para viver.

Seguir em frente? Para onde seria? Tinha sessenta e nove anos, não era um adolescente que podia ir para a universidade ou ter um ano sabático. Seguir em frente. Suspirou enquanto entrava no quarto arrastando os pés.”

Existe uma inexplicável familiaridade à primeira vista com Arthur. A conexão imediata é culpa da narrativa bonita, instigante e delicada de Phaedra Patrick. Seu cuidado no desenvolvimento dos personagens torna tudo muito mais verdadeiro. Arthur Pepper pode facilmente ser alguém que conhecemos. Se sensibilizar com as dores dele é muito fácil, mesmo que você não tenha a mesma idade ou tenha perdido alguém que amou por mais de quarenta anos.

Isso vale para os personagens secundários: cada um guarda consigo dramas particulares. São muitos temas tratados pela autora, mas não soam como se tivessem sido jogados sem cuidado ou forçados. Na verdade, as ações de Arthur e sua jornada afetam diretamente cada um dos coadjuvantes de um jeito único. Ao final, ninguém está do mesmo jeito que começou e garanto que você também não estará!

Ele poderia levar as coisas de Miriam para a loja de caridade, poderia guardar a pulseira no seu armário e esquecê-la. Seria uma opção fácil. Mas duas coisas impediam-no. Uma, o mistério. Como as histórias de detetive de domingo à tarde, a que ele e Miriam assistiam, descobrir as histórias por detrás dos pingentes da pulseira ficariam atormentando seu cérebro. Poderia descobrir mais coisas sobre sua esposa, e se sentir mais próximo dela. E a outra era Bernadette…”

A narração em terceira pessoa é outra beleza à parte. Ainda que passeando pela rotina enfadonha de um viúvo enlutado, alcançando suas lembranças mais felizes com a família e as aventuras dessa jornada inusitada, tudo é narrado com uma sensibilidade muito honesta.

Essa é uma história nada clichê sobre luto, esperança e despertar para a vida, mesmo carregando momentos difíceis. As nossas reflexões vão surgindo naturalmente, enquanto acompanhamos o desenvolvimento de Arthur e a mudança no modo como ele enxerga a si próprio e a vida. Essa é umas partes mais bonitas! Ele redescobre a alegria de viver, a importância de construir laços e nos desafia a fazer o mesmo. É impossível chegar ao final sem algumas lágrimas nos olhos. Vibrei e me emocionei com cada uma das conquistas dele.

Estava passando por emoções que não sabia que existiam. Começara a descobrir pessoas e animais que o excitavam. Não estava preparado para apodrecer em sua poltrona, pranteando sua mulher, esperando o telefonema dos filhos e preenchendo seus dias com aguagem de plantas e TV.”

Então, te desafio a fazer essa escolha não tão óbvia de leitura e a se deixar apaixonar por essa história.

Acredito que bons livros são aqueles que contam grandes histórias. Mas livros incríveis são aqueles que conseguem transformar histórias simples, cotidianas, em algo extraordinário e com lições importantes. O Bracelete Misterioso de Arthur Pepper concede momentos únicos, grandes oportunidades de nos fazer olhar para dentro e isso é valioso! Muito mais do que um bracelete de ouro com pingentes.

Ofereceu conselhos sobre relacionamento a um estranho num café, e, ao falar, não soou como um velho tolo que acreditava ser. Confrontou um rival amoroso do passado, quando poderia ter ido embora, e tentou ajudar Sebastian. Sua receptividade e aceitação de um rapaz com problemas com drogas e sua cachorra surpreendera-o. Essas eram qualidades que ele não sabia possuir. Era mais forte e mais profundo do que pensava, e gostou dessas novas descobertas sobre si mesmo.”

“— Sabe, nas minhas viagens, conhecendo gente que fez parte da vida de Miriam, estou aprendendo que as pessoas se lembram de você pelas coisas que diz e faz. Ela já não está aqui, mas permanece ao coração e na mente das pessoas.”

Esse é o único livro da autora publicado no Brasil, espero que em breve outras obras sejam traduzidas.

4 Comentários

  1. Marina Mafra09 nov, 2019Responder
    • Nicole Oliveira09 jan, 2020Responder
  2. Le09 nov, 2019Responder
    • Nicole Oliveira09 jan, 2020Responder

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