Os Segredos que Guardamos

Lara Prescott

Editora: Intrínseca

Páginas: 365

Ano: 2019

Sinopse:

União Soviética, década de 1950. O célebre poeta russo, Boris Pasternak, escreve a obra mais importante de sua vida, o romance Doutor Jivago, uma história de amor ambientada após a Revolução Russa, cujos protagonistas são inspirados no próprio autor e em sua amante, Olga Ivinskaia. Considerado antipatriótico pelo governo soviético, o livro tem sua publicação proibida, mas graças aos esforços de um editor italiano consegue ser levado para fora da Cortina de Ferro e ser publicado na Itália. Em plena Guerra Fria, o governo norte-americano enxerga na obra uma excelente arma de propaganda e, através da CIA, organiza uma missão para distribuir exemplares de Doutor Jivago entre cidadãos russos. Aos poucos, somos apresentados a uma cadeia de intrigas, conspirações, amores proibidos e viagens internacionais, por meio de capítulos que se alternam entre Ocidente e Oriente, União Soviética e EUA, e cobrem duas décadas, entre 1949 e 1961. A história é narrada por mulheres fortes que lutam por seus ideais, famílias e desejos. Do lado russo, Olga Ivinskaia, amante, musa, companheira e agente literária de Pasternak. Percorremos com ela os terríveis campos de trabalho forçados e os bucólicos e poéticos campos nevados do interior da Rússia. Do lado americano, conhecemos os detalhes da Missão Jivago por meio das datilógrafas da CIA em Washington e de duas agentes, a veterana Sally Forester e a novata Irina, que deixam o trabalho de escritório para ir ao campo. Com as duas, passeamos por museus, lanchonetes e sebos da capital norte-americana - e perdemos o fôlego em missões secretas ao redor do mundo. Em ambos os lados, somos apresentados às ações mais nobres, e também às mais baixas, tomadas em nome de alguma ideologia. Entre agentes duplos, traições, histórias de amor, dramas familiares, bombas e foguetes, acompanhamos não apenas a saga da publicação de um clássico da literatura como também a história de mulheres precursoras que batalharam para serem protagonistas de suas próprias vidas.

Segredos, entregas misteriosas, agentes secretos, agentes duplos, mentiras, trapaças e… um livro. Ou deveria ser dito, o livro!? Doutor Jivago é o elo entre todas as tramas na história que compõe Os Segredos que Guardamos, estreia da autora Lara Prescott e que ganhou edição especial na coleção Intrínsecos na sua chegada ao Brasil pela Editora Intrínseca.

Entre as décadas de 1950 e 60, somos levados para cantos opostos do globo, através da dinâmica dos mais diversos personagens. No Oriente, passamos pela União Soviética de Stalin, vendo a história por trás do nascimento da obra Doutor Jivago pelo poeta e romancista russo Boris Pasternak e, especialmente, pelos olhos de Olga Ivinskaya, a mulher que acompanhou sua vida bem mais do que sua esposa, Zinaida.

De outro lado, no Oriente, iremos conhecer as Datilógrafas, as mulheres que digitam os relatórios da Agência com olhos que fingem não compreender o que os dedos redigem. Cada uma delas formando seu papel na história, indo e vindo para formar a linha do tempo que se desbrava através da missão Jivago. Mulheres que são bem mais do que datilógrafas após o fim do expediente, podem ser andorinhas, mensageiras e outras pessoas que não elas mesmas.

A história se desbrava de um modo misterioso, por vezes, alguns personagens narram apenas uma parte da história, por outras, aparecem com frequência e nos dão a compreensão do que aconteceu em cada pedaço de história. Ainda assim, há coesão em tudo que se lê, não se sente falta de um ou outro personagem, ainda que, várias vezes, queremos saber qual será sua próxima missão ou mesmo se alguém sobreviverá ao dia seguinte, se alguém irá publicar o livro, se alguém irá ler, se a vida de alguém será ceifada. Às vezes, as consequências mais duras que nos são impostas são exatamente aquelas que recaem não sobre nós mesmos, mas sobre aqueles ao qual amamos.

Pasternak acredita que Doutor Jivago seja a obra de sua vida, e, a partir de sua musa inspiradora, Olga, também o amor de sua vida, é que é possível criar a história. Ainda em fase de escrita, a censura se faz presente. Consequências que reverberam até a personagem que mais me cativou e prendeu no livro: Olga. A acompanhamos pelas memórias de uma paixão que nascera por Pasternak até o período em que é levada para um Gulag (um campo de trabalho forçado para criminosos e opositores ao regime da URSS). Acompanhamos também seu retorno e todos os anos de sua vida entremeados à vida de Pasternak e sua obra.

Mas Olga não é a única mulher de destaque na trama e que dá o tom dos acontecimentos. Temos as datilógrafas, que são várias coisas ao mesmo tempo e, possivelmente, nenhuma delas é de fato, uma datilógrafa. Em especial temos Irina e Sally. Que vivem a vida que desejam, que desbravam o mundo dos homens com a força de ser uma mulher, cada uma a sua maneira.

Já Pasternak, o vemos em várias formas e fases, em como Doutor Jivago foi sua obra-prima, em como transformou sua vida. É um homem que me fez raiva durante a leitura em vários momentos, é claro. Mas também, é inegável o mérito por ser aquele colocado sob o holofote, o alvo para que o governo tente abafar quaisquer palavras que lhe desagradem. A censura ao livro se faz de maneira tão opressora que sua primeira publicação ocorre apenas em terras italianas. Os riscos para o autor e aqueles que o rodeiam, a partir daí, só aumentam.

Envolvendo uma trama de espionagem americana à realidade do casal Pasternak e Olga sob a vigília de um regime opressor, a autora desenvolve, misturando dados e fatos de sua pesquisa sobre a vida de ambos à ficção, um enlace impecável. Somos levados a crer que não apenas a história de amor que permeia a relação de Pasternak e Olga é real, mas também todas aquelas que são encontradas no Ocidente, especialmente com Irina e Sally. Sim, o romance ainda encontra espaço para tecer o tema da repressão das pessoas LGBTQ nos EUA na época da Guerra Fria. De forma sutil e honesta, ela mostra o lado da vida daqueles que foram subjugados desde muito tempo na nossa história.

Com a pegada de mistério que as ações da Agência dá, a autora consegue fazer com que a história entretenha, ensine e traga boas lições. Não apenas a narrativa é ágil e torna a trama interessante, como também traz os lados felizes e tristes por trás de ambas as histórias: aquela criada por ela através dos dados históricos recolhidos e aquela que faz parte da realidade de outros tempos. Os segredos, que ganham destaque no título, são também fio condutor da trama. Os segredos que guardamos podem ser bem mais profundos do que se imagina, podem ocultar um crime, um desamor, ou iludir. Podem ser as justificativas para as ações que não compreendemos. Podem ser os motivadores para aqueles que não conhecemos.

Invariavelmente, nos apaixonamos ao ler Os Segredos que Guardamos, seja por sua beleza estética, sim este é um livro como poucos, a beleza não está apenas na narrativa, mas na mescla de romances, romance, mistério, suspense com ficção e não ficção. A história, completa, forma um quebra-cabeças perfeito, que se encaixa a cada vida de cada personagem criado ou replicado da realidade. A peça central, que dá liga a tudo que se lê é, sem dúvidas, um livro. O livro. Doutor Jivago.

Um dos riscos que corremos ao terminar a leitura de Os Segredos que Guardamos é este: passar pela última página e descobrir que a leitura de Doutor Jivago tornou-se indispensável e, talvez, seja importante também assistir ao filme. E ler um ou dois livros sobre a história de Olga Ivinskaya.

“O objetivo: enfatizar o quanto o sistema soviético não permitia a liberdade de pensamento – o quanto o Estado Vermelho impedia, censurava e perseguia até seus melhores artistas. A tática: colocar materiais culturais nas mãos dos cidadãos soviéticos por quaisquer meios.”

“Jivago fora publicado na Itália seis meses antes e, após o lançamento em cada novo país – França, Suíça, Noruega, Espanha, Alemanha Ocidental -, eu sentia que mais olhos nos observavam. A cada edição estrangeira, surgiam dúvidas a respeito do motivo pelo qual o livro não fora publicado em seu país natal. Até então, o Estado não dissera uma só palavra sobre o romance. Sua mão era firme, mas um tremor crescia. Eu sabia que era questão de tempo até que agissem.”

Como falei lá no comecinho (obrigada se me leu divagar sobre essa leitura até agora ahah), o livro recebeu edição especial pelo Intrínsecos, clube do livro da Editora Intrínseca, que enviou o kit de novembro em parceria com o Resenhando. O kit da vez veio com o livro na edição mais linda de todas (atenção para a capa cor-de-rosa), com a revista Intrínsecos, que traz matérias sobre a autora, o livro e temas relacionados à história. Além disso, o brinde da vez foi um passaporte, com adesivos para registro dos livros, postal e marcador com a arte que o livro em versão tradicional será lançado e um extra, um kit com cinco marcadores de livros famosos da Editora:

“‘Dedos rápidos guardam segredos’ era o lema não oficial do setor de datilografia.”

2 Comentários

  1. Marina Mafra05 dez, 2019Responder

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